Era ela. Vítor tinha a certeza. Só ela podia saber que ele tinha passado a noite fora. Sentiu receio pela primeira vez. Um desassossego que lhe cortava a respiração. Olhava para trás, para o lado. Havia vento que lhe cruzava a pele, sons que se cravavam nos ouvidos como um tilintar permanente. Já aquele sol que lhe rompia a janela parecia queimar-lhe as íris. Havia uma luz forte que o atirava ao chão. Era ela. Era ela que o apedrejava de raiva, de uma cólera quase agonizante que o estorcegava. Quase que ele a via, quase que lhe sentia o cheiro, o doce cheiro que ele lhe conhecia. Mas agora ela odiava-o. Agora lapidava-lhe a vida. Talvez o tivesse feito sempre, desde que morreu.
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