sexta-feira, 7 de maio de 2010

Conto - parte 2

As folhas que tantas mulheres lhe gabavam. Havia nele uma provocação permanente a elas. As palavras que lhe saíam dos dedos liam-lhes os pensamentos. Ele sabia. Olhava-as como se fossem alimento e à medida que se consumiam no seu discurso deixavam-se levar como o vento faz às palavras.

Leva-as o vento.

No fundo não as queria dedicar ao vento. Uma alma como a dele não o deveria fazer. Sabia-o. Sentia que o seu amadurecimento renascia mais forte sempre que as palavras que oferecia ao vento retornavam à sua procura. E crescia. E dedicava-as cada vez menos. Cada vez menos.

Mas nessa maturação indolente deixou que o amassem pelas palavras. E comprava-lhes o coração com mel de juras. Não era intencional na dor que lhes cominava. Queria ao mesmo tempo que a afeição que sentia por ela lhes chegasse.

“Que esta insatisfação me cegue! Que me engane no que vejo! Não quero condenar as mulheres à imperfeição…” – ele não era feliz.

Havia momentos que parecia que sim. Quando lhe dedicava as suas madrugadas no papel. Sentia que ela o lia.

Estava quase certo da sua demência mas preferiu não ter certeza. No fundo acreditava que tinha uma ausência de memória. Um rasgo no passado que o protegia. Aquele amor que ele sentia e não sabia por quem.

Mas o olhar que ele sabia de cor, que lhe contava quantas pestanas tinha, quantas estavam desviadas… aquele olhar ele reconheceria em qualquer parte em qualquer hora.

Ela que ele não via, que só lhe sentia o aroma. Ela que ele não lhe sabia o nome, que só lhe sentia o respirar.

Ela.

Foi no dia do rio vermelho que as viu.

Estava estendido na casa de banho amolecido em sangue. Arrumou-lhe as folhas. Arrumou-as e leu-as. Já tinha estado ali noutras ocasiões, não era a primeira vez mas as folhas só as vira naquele dia.

Não era a hora dele. Mas que razão havia para ele se querer matar? “Quem escreve assim tem uma alma grande. Só se for por isso… tão grande que não lhe cabe no corpo…” – pensava para si.

Deixou-lhe a porta aberta. Não era a hora dele.

Patrícia Prata

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