segunda-feira, 19 de abril de 2010

E o anjo já não era anjo...

E o anjo já não era anjo. O anjo era dor, era carne, era pele suada.
E das palavras que vivia e que lhe enchiam o coração ficou com a memória.
As falanges Dele deixaram de se mover. Dele que outrora o via garatujar.
E como desceu à Terra para O procurar e as palavras perderam-se, morreu na solidão do silêncio.

E o anjo já não era anjo. O anjo era mágoa, era desilusão, era expectativa fracturada.

E das asas de condão que tinha, ficou com as penas.
O papel perdurou branco, sem tinta. A tinta que Lhe saía das garras, porque sentia as palavras no sangue.
E como desceu à Terra e se fez mulher, encarnou, perdeu as asas e as palavras que Ele lhe dava, morreu na solidão rude.

E o anjo já não era anjo. O anjo era corpo, eram pernas e mãos, eram cabelos, eram lábios.
E o corpo que lhe ficou, permaneceu mudo e cego porque já não O lia, porque perdera a sua poesia.
E no dia que desceu à Terra Ele quis subir-lhe pelas pernas e alojar-se.
E anjo morreu. Morreu à espera das mil palavras que Ele lhe prometera e deixou de O ver perdido no corpo que a Terra lhe tinha emprestado.

E o anjo já não era anjo. O anjo era corpo, era pessoa.
E o anjo morreu. Sem palavras, sem asas, sem condão.

Patrícia Prata

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