sábado, 4 de dezembro de 2010

Arrumada num canto da sala

O que ela mais queria era desprezar a insegurança, daquela que se cola ao cortiço como resina, envolvida numa embriaguez torpe e infame. O inebriamento quase obsceno por só lhe agitar o engenho, calcava-lhe a felicidade com rude força. Descobria-lhe as entranhas sem pudor. Aquele olhar não podia esconder. Queria mas não conseguia. Trazia na alma o verdadeiro bem querer. Daquele em que a felicidade reside no outro. Mas as palavras que ouvia eram como sentenças excruciantes.

Abstracção.

Difícil.

"Se não voltar é porque não tinha de voltar." - Como lhe doía pensar nisto. E arrumava-se num canto da sala.

Abstracção.

Sai à rua para ver e ouvir. Sai porque o frio lhe acorda a dolência. "Amanhã é outro dia. Amanhã vou acordar feliz e ditosa. " - E decidiu isto.

Patrícia Prata

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