quinta-feira, 6 de maio de 2010

Conto - parte 1

O sangue que tinha nas mãos não era de escrever as tantas palavras de amor. Era da raiva aos céus.

Via no chão um rio vermelho, amores incertos e vazios que lhe dilaceravam o coração.

Aquele carmino perseguia-o. Quantas vezes passou naquela ponte e lhe contou os metros de cima até abaixo. No fim de os contar perdia a vontade de lhe conhecer a descida repentina. Dizia que ia tentar aprender a viver mais uma vez.

Era nessas alturas que ele deixava que os pensamentos lhe lambessem as falanges dos dedos. Ficavam húmidos, escorregadios. Não sabia se era de escrever depressa ou se do receio de parar. Sabia que no dia que eles parassem, os próprios dedos o ceifariam: de raiva, de ódio, de prazer! Mas matariam-no!

Escrevia para ela.

Ela que não queria, que não podia, que não sabia.

Escrevia para ela que a via em cada cunhal. Sonhava em meter-lhe as mãos em cima! Pôr-lhe os dedos! Vê-la tão dentro até saborear-lhe a pele do estômago!

Aquele bem-querer excessivo era transportado nos olhares femininos com que se cruzava o seu. Era intenso. Era excessivo porque lhe rasgava as entranhas do corpo na demanda do olhar perfeito.

Continuava a procurá-la em cada beijo que recebia, em cada brado que entendia mas as salivas eram azedas, os aromas pútridos, a pele seca.

Naquele dia sentiu-a. Sentiu a sua presença mais perto, mais encostada a si. Não sabia porquê.

O seu corpo tinha reclamado a saliva alheia. “Homem é homem!” – dizia-lhe o amigo jornalista – “ e homem não pode estar sozinho!”.

Ele ouvia o jornalista e pensava “Esse foi o maior engano de quem arquitectou o cosmos. Porque qualquer animal é mais humano que o Homem. E qualquer Homem é mais animal que os demais.”

Pensava e agarrava-lhe no corpo. Do corpo que batia no seu corpo de animal. Não lhe interessava quem era e mais animal se sentia. Queria rasgar a roupa e penetrá-la. Não lhe conhecia o rosto e não queria conhecer. Não era o dela.

E continuava a puxar-lhe as nádegas. Se estava ali alguém ele não sabia. Eram pernas, eram cabelos e lábios que o comiam mas não era ninguém.

Chegava a pensar que devia ter poupado os vinte euros e procurado em si mesmo o alívio daquela tesão.

Chegou vazio a casa. Vazio de tudo. E não sentia nada.

Fez a barba rija dos cinco dias passados e arranhou os pulsos com a lâmina. Escarnecia-se dele próprio que nem um louco.

Jorrava seiva para cima das folhas escritas por si. Eram para ela.

Patrícia Prata

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