domingo, 12 de setembro de 2010

No seu estrado, bocados grotescos...

(...)

E nessas alturas em que o corpo dava voz à vontade, cortava-se para que o sangue azedo que lhe corrompia a alma o abandonasse de vez.

Nunca conseguiu.

Não entendia porque a morte não se lhe caldeava ao corpo. Tantas vezes a procurou e tantas vezes a vida teimava em não abandoná-lo.

Não sabia porque pagava às mulheres para lhe darem prazer. Havia aquelas que se atiravam aos seus pés (...). Havia muitas mulheres que se apaixonavam pelos seus dedos, pelas suas linhas cravadas no papel.

Alturas houve que se envolvia com elas, abria-as de tal forma que no dia seguinte dava-lhe a sensação de lhes apanhar as entranhas no fundo da cama. Não as queria magoar mas não as amava. Odiava-as. Os seus corpos levavam-lhe a alma aos bocados grotescos. E por mais que se quisesse libertar, ela sempre o observava. Muitas vezes o seu corpo arrepiava-se com aquela figura que lhe aparecia nas alturas mais inesperadas.

Já não se lembrava como ela tinha chegado à sua casa, ao seu estrado. (...)

Patrícia Prata

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