segunda-feira, 10 de agosto de 2009

TRANSIBERIANO - 06/08/2009 - 15º Dia – Pequim,Grande Muralha - China (+7h que em Lisboa)


Adormeci de manhã e não dei o tempo suficiente ao meu avô para se despachar. Consegui arranjar-me em 5 minutos mas não podia exigir dele o mesmo e fizémos esperar a camioneta inteira cerca de meia hora.

É uma coisa que me inquieta: fazer esperar alguém, de certa forma até me altero e aquele ar pacífico, próprio de mim, transforma-se e é visivel a minha agitação.

Aquilo não me podia acontecer, especialmente no dia pelo qual eu tanto esperei: o da visita á Grande Muralha.

Aquele quarto tornou-se em quarto de guerra. Querendo apressar o meu avô, o velho ditado do "quanto mais depressa, mais devagar" punha-se a jeito no contexto. Não comemos nada e fomos directamente para a camioneta. Cerca de 60 olhos miravam-nos em reprovação. Pedi desculpa pelo sucedido e iniciámos a viagem.

O azul do céu de Pequim esconde-se por trás de uma nuvem cinzenta de poluição. Parece estar sempre nublado e a caminho da muralha, a humidade descia e apoderava-se do cume das montanhas que iam surgindo no caminho. Parecia que estava prestes a chover e o frio do ar condicionado da camioneta dava a sensação de tempo invernoso lá fora. Na base da Muralha saimos da camioneta e um sopro quente acalentou-me o corpo. O guia deixou-nos á vontade e informou-nos que tinhamos cerca de 1h30 para fazermos o que quiséssemos. Cá em baixo existiam alguns cafés e casinhas de artesanato e o meu avô optou por ali ficar, juntamente com outros companheiros que preferiram não subir.

Comi qualquer coisa para ganhar forças. Aquele troço de muralha era muito alto e o calor não ia facilitar a subida.

Respirei fundo e comecei a subir. Era o culminar da viagem, aquilo porque tanto esperava: estar numa das 7 maravilhas do mundo.

Deviam estar milhares de pessoas ali concentradas, umas a subir e outras a descer. Todas iam bem dispostas pois pareciam que por ali estar iam fazer parte da história. Era, pelo menos, o que eu sentia.


Subi cerca de 3 torres em meia hora. Apetecia-me subir mais, mas fiquei com medo de chegar atrasada. Os 8.850 km que se estendem sob a muralha pareciam-me pouco. São praticamente os mesmos kms que percorri no Transiberiano. Cada vez que subia uma torre, olhava para baixo e a altura era assustadora. Os degraus altos não ajudavam. Quantas pessoas não devem ter perecido na sua construção. Diz-se que cerca de 250.000 homens! E que mais de um milhão entre soldados, camponeses e cativos foram necessários para a sua construção.


Estava radiante! Subia as escadas como se no fim fosse encontrar um pote de ouro! Nem o calor nem os degraus me puxavam para trás, apenas o limite do tempo. Passei por alguns companheiros de viagem que se via tentarem o mesmo.

Na subida das escadas chegava a formar-se fila e foi nessa altura, da terceira torre, que achei sensato iniciar a descida. Fui tirando várias fotos e filmes nos vários niveis em que me encontrava. Queria tudo bem documentado. E a meio da descida, aconteceu outra vez: um grupo de chineses pediu-me para tirar fotos. Eu respondi que sim e no fim perguntei-lhes, em inglês, porque queriam tirar fotos comigo e eles responderam-me: "Pretty!Pretty!". Foram irresistiveis aquelas palavras. Ainda que não fosse verdade tornou o meu dia mais feliz.


Cheguei a tempo de comprar uns souvenirs. Tinha de adquirir um iman da grande muralha para o meu frigorifico. Qualquer dia não tenho espaço para o abrir mas de certa forma é a prateleira dos meus troféus. Existe coisa melhor do que se viajar?

Parti da Muralha com a sensação de "dever cumprido".

Dali fomos almoçar a um restaurante. A comida chinesa era mais agradável que a russa e a mongol mas o meu estômago ainda se sentia deprimido. De qualquer forma a mesa rodava no meio e eu comia com os pauzinhos para dar alguma alegria á refeição.

Cruzei-me com o italiano. Que consolo para os meus olhos. Era uma pausa de pensamentos para a minha mente. Tinha conseguido arranjar uma forma de me abstrair de tudo quando o via. Sabia que não ia passar daquilo mas punha-me bem disposta.

O ritual mantinha-se, depois de almoço mais uma visita. Desta vez a uma fábrica de seda. Mostravam como faziam tudo, desde os casulos até á produção de roupa. Foi interessante mas não tinha intenção de comprar nada.

Voltámos ao hotel para um belo banho. A ideia era um jantar glamoroso de despedida: ia ser á nossa última noite em Pequim e o regresso ás nossas casas. Todos os grupos de várias nacionalidades se iam juntar naquele jantar.

Eu meti as minhas calças de ganga e uma t-shirt. Não podia evitar o ar descontraido que sempre tive durante a viagem. Ia soar a forçado. Um toque despercebido para me sentir bonita. era o que bastava.

Viu-se nos trajes alguma preocupação. Alguns, a meu ver, exagerados, optei por não criticar, preferi tentar entender a alegria com que os passeavam.

O jantar foi animado. Todos sentiam, que apesar de algumas adversidades levavam na bagagem algo positivo, nem que fossem os souvenirs!

O nosso, companheiro de bordo, médico, disse á plateia algumas palavras que me fizeram esboçar um sorriso. Falou da viagem e como tinha sido uma experiência importante para todos nós e agradeceu-me a mim e ao outro neto a nossa juventude. Fiquei feliz, porque pensei que apesar da minha ausência, num mundo que é só meu, consegui transmitir alguma coisa.

Olhei para o grupo e tirei-lhes fotos. Não queria perder a imagem das pessoas, que de certa forma, contribuiram para a minha bolinha de mercúrio. A maior parte delas conseguiram fazer com que eu me debruçasse a pensar em coisas que nunca me tinham passado pela cabeça.

A sua contribuição foi valiosa e agora compreendo uma frase que li na revista "Volta ao Mundo" antes de embarcar nesta aventura : "Chamam-lhe a mãe de todas as aventuras porque atravessa dois continentes, dez mil quilómetros de ferrovias e oito fusos horários. Mas sobretudo porque ninguém volta a ser o mesmo depois de fazer o transberiano." Eu acrescentaria que trazemos connosco a experiência das vidas com quem partilhámos o caminho.

De facto, não voltarei a ser a mesma.

1 comentário:

Rui Pereira disse...

De facto..sem palavras! Será sempre de certeza uma experiência inolvidável! Pretty! Pretty! Very pretty! :P