sábado, 8 de agosto de 2009

TRANSIBERIANO - 25/07/2009 - O 1º DIA – Moscovo ( + 2h que Lisboa )

Chegámos numa viagem não muito atribulada…
Escala em Frankfurt, tudo muito rápido e seguido.. Talvez fosse do sono que não tive… andei a dormir pelos cantos do aeroporto, como de uma menina de olhos ensonados que os esfrega sem parar.

Chegámos de tarde, o tempo estava como um dia quente que acaba de chegar depois de um periodo invernoso… O chão corria latejante como se fugisse de mim… parecia querer sair de onde estava… Tenho sempre esta sensação quando entro em solo estrangeiro… Diz-me: “não sou teu, vem ver-me, volta sempre mas não fiques cá!”.

Acho que, na verdade, é a felicidade de conhecer algo novo, mas a alegria de voltar á minha terra.
Atrapalhados com a bagagem de mão, olhos esbugalhados e uma atenção meia desviada por toda a informação que chegava simultâneamente. Estávamos assim: o grupo que não se conhecendo, ia passar os próximos 15 dias juntos, numa viagem chamada de sonho.
A primeira pessoa com quem falámos foi uma senhora muito simpática, com um sorriso de orelha a orelha. O meu avô perguntava-lhe se o fio que trazia o tinha comprado no avião. Respondeu, prontamente que não, que o tinha comprado em Lisboa. Foi fluindo a conversa de inicio… de onde éramos, quem éramos… A surpresa era sempre alguma, quando sabiam que eramos neta e avô.
Calculo que devam ter pensado: “ o que não daria a miúda para não estar com os amigos da idade dela, na praia e na rambóia”.
Chegámos ao Hotel. O Hotel Baltschug Kempinski. Um verdadeiro hotel de 5 estrelas. Todos estavam ali para nos receber. Tudo era sincronizado. Lembrei-me logo daqueles musicais de Fred Astaire, onde todos corriam de um lado a outro, sorriam muito, dançavam e tudo era perfeito.

Quem nos servia o jantar era um grupo de rapazes russos… não deviam ter mais de 16 anos…17 no máximo.. Todos loiros de olhos azuis… A hierarquia manda-os sorrir.
“De facto, são muito simpáticos,” dizia alguém na mesa.
E são.
Mas a frieza do olhar não me deixou indiferente. Havia uma certa distância… penso que é cultural… são todos muito pouco dados… chegam a ter os traços do rosto rígidos…alguma indiferença até. Quem os vê de fora, aos russos, parece até que discutem entre si.
No jantar, a primeira revelação da cidade… uma vista dislumbrante sobre o rio Moscova, num fim de tarde. É incrivel como todas as cidades quando se preparam para dormir se revelam de uma forma muito própria.. quase sempre são belas, mas são sempre distintas…
O fim de tarde em Moscovo revelou-se como um testemunho do passado… aquela brisa trouxe-me um aroma a História. Fiquei com sede de conhecer mais… de saber o porquê e o como, o quando e o onde… Afinal todos somos resultado destas perguntas, não só individualmente mas colectivamente, como membro de um grupo, de uma cultura.
O dia terminou.. foi catárse para mim. Tudo o que vi acrescentou-se-me…
Lembrei-me de repente de um episódio em criança… Coisas de miuda.. Parti um termómetro e, inocentemente, brincava com os pequenos círculos de mercúrio que ia separando, com uma colher, ou juntando. O círculo mantinha a mesma forma, apenas se tornava maior ou menor, conforme eu os juntava ou os separava.
Aqueles circulos fizeram todo o sentido na minha cabeça.. ainda mais agora.. É o que sinto quando algo se me acrescenta.. é o que sinto depois de ver mais um pormenor, de saber mais uma palavra, de conhecer mais uma pessoa, de ler mais um livro, de conhecer mais um lugar… Sinto que sou a mesma, mas que sou maior.

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