domingo, 9 de agosto de 2009

TRANSIBERIANO - 04/08/2009 - 13º Dia – Erlian - China (+7h que em Lisboa)


Chegados á fronteira entre a Mongólia e a China, já como tinha acontecido entre a Russia e a Mongólia, o comboio parou algumas horas para a verificação dos passaportes por parte das autoridades locais.


Já nos tinhamos zangado, eu e o meu avô. Nem sequer consigo dizer a razão. Apesar de me considerar extremamente paciente haviam alturas que estava prestes a explodir, porque o "porque sim e o porque não" têm esse efeito em mim.


A distância entre as gerações não é razão suficiente para tantos desacatos. Creio que a maior parte das pessoas, excepto as que se encontravam lado a lado das nossas cabines, se apercebiam das longas e tortuosas conversas que mantinha com o meu avô na cabine 8.

Na sua opinião, eu era alguém, que por ser gerente, estaria habituada a "mandar" e que a minha vontade tinha de ser feita. Para além do que não me expressava oralmente com a fluidez que ele achava ser necessária para a compreensão das pessoas.


Ora, quando eu tentava me expressar era logo mandada calar, porque eu não deixava falar ninguém. Perante tamanha incongruência de discurso, a minha resistência ia abaixo e debatendo-me com o facto de ficar nervosa, sem saber como reagir, continha esses nervos debaixo de uma força a que o meu corpo não estava habituado. Sentia as veias a dilatarem-me no pescoço e o sangue a correr como louco em direcção á cabeça.

Acabava por fechar os olhos, respirar fundo e ausentar-me da cabine até conseguir fazer reset no meu estado de espírito. Quando voltava, o meu avô continuava a falar mas eu já não respondia. Considerava ser uma forma de manter o respeito que tinha por ele e procurar na adversidade a tranquilidade.


Naquele dia adormeci assim. Sabia que ele estava zangado mas era incapaz de lhe pedir desculpa, apenas porque não encontrava razão nenhuma para isso. Mas sei que se o fizesse, o meu avô restauraria o seu lugar e ficaria feliz.


Acordei cedo. Tinham-me dito que só seria preciso sair do comboio por volta do meio dia, depois das autoridades vasculharem-nos a vida impressa nos passaportes. O meu avô estava cansado. Como é costume não tinha dormido nada. De noite parece que ganha vida e anda pela cabine a arrumar não sei o quê.


Levantei-me, fui tomar o pequeno almoço e trouxe-lhe o seu até á cabine, como continuava a dormir deixei-lho em cima da mesa. Ainda era cedo e parámos na fronteira quando me deu a sede; já esperávamos pelos policias há pelo menos 1h. Fui até á carruagem do restaurante beber água e esticar as pernas que neste percurso devo demorar uns 4 minutos. Quando voltei estava montada tamanha confusão á porta da minha cabine que percebi logo o cenário. O aglomerado era constituido por policias, pelos camareiros e pelos restantes passageiros das cabines do lado. Quando me viram gritaram "Patrícia! Patricia! Onde estavas?!". Dirigi-me á cabine, esperando já o arraso público. Estava o meu avô sentado, desgrenhado e gritando-me "Nunca mais me fazes isto!!", ainda tentei responder "Fui só buscar água" mas não valeu a pena. Estava tão enraivecido por ter policias dentro da sua cabine a falarem-lhe numa lingua que não entendia que a culpada era eu e só eu.

Fui buscar os passaportes e dei aos policias. Um deles perguntou-me "It's your husband?" e eu franzi os olhos e disse "No, it's my grandfather!". O policia chinês olhou para mim e abanou a mão como se se tivesse queimado, querendo partilhar da minha preocupação com toda a situação.

O aglomerado dissipou-se e o meu avô só me dizia, com ironia, que estava feliz por eu lhe fazer tanta companhia e o ajudar tanto.

Tenho consciência que me tinha andado a afastar para procurar a tranquilidade e serenidade que não consigo ter junto do meu avô. Talvez tenha sido egoista nessa busca e tenho consciência que optei pela via mais fácil.


Saimos para Erliang, a cidade de entrada na China logo a seguir á Mongólia. Era outra cidade sem grandes coisas para ver mas era notável que diferença entre paises se podia concretizar em apenas 724 km.

Tudo estava, aparentemente, organizado: um sitio para os carros, outro para as casas, outro para os riquechós. Nada parecia fora do sitio e dava a sensação de ter sido uma cidade pensada.


Mesmo durante o almoço as confusões que pareciam existir noutras cidades aqui não se verificavam.

Não demorámos muito tempo aqui, logo a seguir ao almoço voltámos ao comboio para seguirmos para Pequim.

1 comentário:

Anónimo disse...

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