E ficaram os dois a olharem um para o outro, separados por uma turba de gente agonizada pela violência do corpo de Vítor. Arantza perplexa com a situação e Vítor embaciado no seu estado de quase alienação. Só queria chegar a ela. Queria dizer-lhe coisas absurdas, mas queria dizer-lhas. Que a adorava, que a amava, não sabia. “Mas porque é que não lhe posso dizer que a amo? Se é loucura amar alguém que se viu pela primeira vez, maior é a loucura de não voltar a amar! Ah! Quero que este amor me rasgue por dentro! Já não sou quem fui, não serei quem devia ser, não sei porque corro nem porque escrevo, não sinto nada na pele, nem na boca que me sabe a vinagre, nem as mãos que me esmagam a tesão! Ahh! Não sinto o suor nem as folhas finas de papel que me cortam os dedos!! Não sinto os dentes que me mordem de raiva nem os gritos que me tornam surdo! Não sinto o intestino a revolutear-me as vísceras nem o charco das lágrimas de quem magoo! Não vejo nem o dia nascer nem a noite embalar-me o sono! Ai! Prefiro arrancar as unhas dos dedos a viver neste inferno! Que tenho eu a perder se lhe disser que a amo? Talvez nunca mais possa estar tão perto do céu como agora…talvez nem a morte me queira para ela, nem deus nem o diabo, nem os cabrões dos gnomos!”
Patrícia Prata
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