domingo, 2 de janeiro de 2011

31/12/10 Buenos Aires



Sem despertador o corpo salta do beliche. Do segundo andar ouço a respiração das restantes habitantes do quarto. Ainda dormem. Talvez a noite tenha sido longa, talvez o cansaço lhes habite o cortiço de tal forma que a curiosidade não lhes pica o corpo.


É a manhã do último dia do ano e tudo parece tranquilo. Plácido demais. Os museus e as galerias hoje não abrem.

É na rua que tenho de granjear e saciar este apetite. A descontracção não me faz pensar se existem perigos naquela bela cidade.

Caminho para La Boca. Parece perto. Levo a máquina ao peito e mochila nas costas. Há um argentino que se aproxima. Não me sinto ameaçada, a abordagem começa a ser encarada com normalidade. Depois de saber que sou portuguesa, fala-me do jogador madeirense de que todos falam; da equipa encarnada e da verde. Enumera os argentinos que jogam em Lisboa. Conto-lhe que vou ver o estádio de La Boca Juniors e ele pede-me que guarde a máquina e leve a mochila à frente. “É muito perigoso!”

Só depois senti algum receio em ir… mas já estava a chegar. De facto não é um bairro bonito, nem mesmo o estádio lhes engrandece em nada. Os prédios são sombrios, altos e velhos. Não se vê ninguém nas ruas.

Chego ao estádio. Fechado. Feio.

Nas lojas da La Boca há turistas, quase todos brasileiros, assim como na maior parte das ruas de Buenos Aires, o português que oiço vem com sotaque.

Não sei bem de onde, mas sou arrebatada por uma enchente de pessoas. Estão no Caminito. Logo a seguir ao estádio aparece uma rua colorida, com casas pintadas de madeira, gente a dançar o tango e a puxar-nos para dançar.

Duas horas depois descubro que La Boca é longe. Já não consigo ir a pé. Dois pesos argentinos é quanto custa no máximo um bilhete de autocarro, o que equivale a 0.40€. Só temos é de ter moedas.

Falta-me ver o cemitério de Recoleta. Tão raro ir a um em Lisboa, sempre tenho a sensação de acordar quem não devo. Deixai-os sossegados! Mas Recoleta é diferente. Há um silêncio de paz que habita naqueles jazigos. Não parecem contemplar a morte mas a serenidade e ainda que estivessem muitos turistas a vê-lo, o labirinto das tumbas não permitia ver mais do que um ao mesmo tempo. Cheguei a sentar-me lá pelo meio a sentir o zéfiro que por ali passava para falar aos que chegavam mas não ficavam.

E vi mais daquelas ruas que se entornavam de vida, que me vertiam de cores e sabores. Só faltava Puerto Madero.

… que ficou para se mostrar de noite, na noite de despedida do ano, na Noche Vieja.



Feliz Año Nuevo, Argentina!


Patrícia Prata

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