terça-feira, 5 de maio de 2026

Amor algoritmo: Fanny Owen em modo online

Não era suposto isto ser uma tragédia, mas também ninguém ali tinha perfil para comédia, no máximo davam um reels meio constrangedor que alguém partilha com um “isto és tu” e depois finge que não disse nada. Francisca, por exemplo, não era instável, ela tinha “TDHA emocional” ( foi ela própria que diagnosticou depois de ver três vídeos no TikTok e ler meio capítulo de um livro de autoajuda chamado “A tua melhor versão se te esforçares minimamente)”. E pronto, ficou decidido: não era incoerente, era neurodivergente. Resolve tudo.

Tinha um feed milimetricamente curado, aesthetic clean girl misturado com soft sadness, porque hoje em dia sofrer sem filtro já não é aceitável: é preciso sofrer com paleta de cores. A vida dela era uma sucessão de “vibes”. Nunca estava triste, estava “low energy”. Nunca ignorava ninguém, estava “overstimulated”. Nunca magoava, estava “a trabalhar em si própria”. E isto, convenhamos, dá sempre um ar muito mais evoluído à falta de carácter.

Sendo filha de pai inglês, Francisca até tinha autorização genética para misturar idiomas, o que a distinguia ligeiramente dos jovens de hoje, que dizem “random”, “cringe” e “toxic” com a convicção de quem acabou de fundar uma nova escola filosófica. Falava meio português, meio inglês, não por falta de vocabulário, mas porque o caos interno, quando dito em inglês, parece sempre mais terapêutico e menos culpa nossa. “I just feel like… não sei… I’m not in the right headspace.” Não estava. Nunca estava. Mas também nunca fazia grande esforço para sair de lá.

Depois havia o Camilo.

Camilo era o típico homem que se acha demasiado profundo para este mundo, mas não o suficiente para pagar terapia. Em vez disso, escrevia. Escrevia muito. Era aquele tipo de pessoa que diz “eu sinto demasiado” como se isso fosse uma qualidade e não um problema operacional. Tinha ansiedade, claro. Diagnosticada, não. Mas ele sentia. E isso chega.

Andava sempre com um livro atrás para ser visto a ler. Títulos pesados, capa minimalista, autores russos ou qualquer coisa que desse a entender que ele não era como os outros. Depois ia para o Twitter (ele recusa chamar X, porque tem princípios… seletivos) fazer threads sobre amor, dor e capitalismo emocional. Ninguém lia até ao fim, mas ele também não escrevia para ser lido, escrevia para performar sofrimento.

Apaixonou-se pela Francisca como quem entra numa seita. Sem questionar, sem plano de saída, com uma fé quase comovente no potencial destrutivo daquilo tudo. Porque ele não queria uma relação, queria uma narrativa. Queria ser o homem que sofre. E ela era perfeita para isso. Um algoritmo humano de validação intermitente.

E depois temos o José Augusto.

José Augusto era o produto final da manosfera soft. Não daqueles extremos caricatos (esses são fáceis de identificar). Ele era o outro tipo: o que diz que respeita mulheres mas tem um podcast sobre “energia feminina e masculina” que ninguém pediu. Fazia ginásio, claro. Não por saúde mas por branding. Corpo definido, emoções indefinidas.

Tinha feito terapia. Uma vez. Saiu de lá a dizer que agora “define limites”. Na prática, isso significava desaparecer quando as coisas começavam a exigir qualquer tipo de profundidade. Era um ghoster com vocabulário técnico.

Conheceu a Francisca através do Camilo, porque aparentemente ninguém aprende nada com a história da humanidade.

E aqui começa o triângulo, que hoje já nem é triângulo, é mais um grupo de WhatsApp emocional onde ninguém responde diretamente a ninguém.

Francisca falava com os dois, mas nunca ao mesmo tempo, porque isso exige gestão e ela preferia o caos orgânico. Com o Camilo, era intensidade performativa: áudios longos, reflexões sobre trauma, frases tipo “eu nunca me senti assim com ninguém” que ela já tinha dito pelo menos três vezes antes, a pessoas diferentes. Com o José Augusto, era leve, casual, quase profissional: “haha”, “ya totally”, “let’s see”. O suficiente para manter o interesse, nunca o suficiente para criar compromisso.

Camilo via tudo. Não literalmente, ela não era assim tão descuidada, mas sentia. E sentir, para ele, era quase uma profissão. Cada silêncio dela era uma tese. Cada resposta atrasada, uma crise existencial. Ele não queria clareza, queria matéria-prima para continuar a escrever sobre o vazio.

José Augusto também percebia. Mas fazia aquela coisa moderna chamada “gestão emocional estratégica”, que basicamente é: não se envolver demasiado para não correr o risco de parecer vulnerável. Respondia quando lhe apetecia, desaparecia quando deixava de ser conveniente, voltava com um “sorry, crazy week” que já vem pré-instalado em qualquer homem com iPhone.

E a Francisca no meio, a fazer aquilo que faz melhor: alimentar o algoritmo. Porque isto já não é sobre pessoas, é sobre engagement. Quem responde mais rápido perde. Quem demonstra mais interesse perde. O jogo é manter o outro ali, em suspenso, tipo notificação que nunca chega a ser aberta.

Havia ciúmes, claro, mas em versão 2026: indiretas em stories, músicas com letras demasiado específicas, tweets vagos tipo “às vezes o problema não és tu, é o padrão que escolhes repetir”. Ninguém era nomeado, mas toda a gente sabia.

Camilo escreveu um texto sobre ela. Ou melhor: pediu ao ChatGPT para “melhorar o tom, mais literário, mais intenso, mas sem parecer desesperado”, o que falhou logo na premissa. O resultado ficou longo, denso, cheio de metáforas que ninguém pediu e com aquela dor muito dele, agora ligeiramente optimizada por inteligência artificial. Publicou às 02:47, porque sofrimento sem horário laboral é mais autêntico. Teve alguns likes, dois comentários e uma partilha de alguém que claramente não percebeu nada, mas achou “intenso”.

José Augusto viu. Não reagiu. Guardou. Porque ele é assim, acumula informação como quem coleciona vantagem estratégica.

Francisca viu. Claro que viu. Vê tudo. Mas fez o que qualquer pessoa emocionalmente sofisticada faz hoje em dia: ignorou publicamente e reagiu em privado com um emoji mínimo, daqueles que dizem tudo sem dizer absolutamente nada.

E pronto. Ficaram ali. Presos numa dinâmica que ninguém quer resolver porque, no fundo, resolve-se demasiado rápido. E depois? Depois não há história. E sem história não há conteúdo. E sem conteúdo… quem é que somos nós?

Não há mortes, não há duelos, não há finais dramáticos como antigamente. Há algo muito mais prolongado e, por isso mesmo, mais cansativo: pessoas que continuam. Que seguem, mas não seguem. Que superam, mas vão espreitar o perfil de vez em quando. Que dizem “I’m over it” e depois ficam dez minutos a analisar quem viu o story.

Camilo continua a escrever, agora com mais seguidores, porque aparentemente a dor, quando bem editada, converte melhor do que felicidade, que é uma coisa muito bonita mas completamente inútil para o algoritmo. José Augusto está noutra cidade, ou noutra relação, ou nas duas coisas ao mesmo tempo, sempre com aquela capacidade admirável de não estar verdadeiramente em lado nenhum. Francisca reinventou-se outra vez: novo feed, nova fase, nova bio com uma frase em inglês sobre healing e boundaries, e pôs limite de tempo no Instagram para “voltar à vida real”.

Durou pouco.

Ao fim de dez minutos estava na cozinha, de meias, a olhar para um monte de roupa por estender, um tupperware sem tampa e três mensagens por responder que não davam para gerir com emoji. A vida real não tem filtros, nem opção de arquivar conversa, nem música de fundo a justificar o estado de espírito. A vida real pede decisões, respostas completas, e às vezes até coerência, que é uma coisa profundamente fora de moda.

Francisca abriu o Instagram outra vez.

Não por vício, claro. Por necessidade quase antropológica. Para confirmar que, lá fora, alguém continuava bonito, interessante e ligeiramente infeliz, como deve ser.

E assim voltou ao sítio onde a vida parece sempre mais editável do que aquilo que é.

Patrícia Prata

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